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sábado, 5 de outubro de 2024

Ecos de Frank: Notas de Amor

Resgatei este texto de uns 20 anos atrás, perdido nos arquivos do meu notebook, onde compartilho uma jornada de música, saudade e até amor platônico que (ainda) vive no coração. Vem comigo nessa viagem ao passado.


Hoje acordei de banzo. Estranhando o termo? Banzo é uma nostalgia mortal, que fere a alma tão profundamente que parece que vamos morrer, e às vezes isso acaba por acontecer.

Mas o meu banzo é mais ameno, chega a ser suave, melancólico talvez, ainda que cause dor. Mas o amor é assim, dor de amor é assim, banzo de amor também.

Difícil falar do amor que sentimos por alguém que já se foi e sequer soube que você existiu. Sim, de quem já se foi, você leu direitinho.

Sabe, existem pessoas que não morrem na vida da gente, e ele é uma delas, assim como o Senna, o Harrison, o Lennon, a Jackie, a Marilyn, o Gardel e tantos outros, dependendo do gosto de cada um.

Hoje acordei tarde, perdi a hora e, ao ligar o rádio — incrível — o rádio estava fora da estação usual. Acordei ao som das músicas às quais ele tão maravilhosamente deu vida: Let Me Try Again, You Are the Sunshine of My Life, I've Got You Under My Skin. Ficaria ali deitada ouvindo suas músicas por horas, não fosse a programação da rádio ter outras coisas para falar, outras músicas para tocar.

Vou te falar do meu banzo, quem sabe assim eu consiga fazer parar estas gotinhas salgadas que meus olhos teimam em produzir.

Ele me encanta, é assim desde os meus 14 anos. Eu queria ser a Mia Farrow. Uau! Na minha modesta opinião, ela o encontrou na melhor fase: madurão... uau de novo.

Eu estive lá no Maracanã, ouvi o seu canto sessentão. Falaram tanta bobagem: que ele não cantava mais, que iria ser playback. E foi tão lindo, estupendo, a voz mais encantadora que já ouvi. Não vi muito, estava longe naquele estádio imenso; aquele pontinho no centro do campo era o meu maior ídolo. Mas, naquele instante, ele era meu, somente meu — para os meus ouvidos e sentimentos, para o meu coração, que batia tão forte, querendo sair pela boca, correr lá, entrar dentro do coração dele e ficar eternizado em alguma canção.

Naquele dia, todas as canções cantadas foram para mim. Isso é o que há de mais especial nele: cantar como se cantasse individualmente para quem o escuta.

Uma amiga me mandou um e-mail dia desses com um trecho de uma música, uma foto. Abro sempre, escuto, olho e amo, amo e amo.

Hoje, ao acordar com as músicas dele, fiquei pensando que algumas pessoas deveriam ser eternas, não deveriam partir jamais. Na verdade, acho que não partem, se ficam morando assim na alma da gente, emocionando, encantando, vivendo dentro de nossos corações.

Agora coloquei um CD, ouço minha favorita: Fly Me to the Moon. Ah, agora toca Old Man River — não sei se o título é esse, mas que importa?

E assim, nesse meu banzo nostálgico, resolvi viver este dia. Não vou trabalhar, não atenderei telefones. Ficarei em casa, eu e ele, ele e eu. Por que tudo isso? Talvez porque, há já uns trinta e poucos anos, ele viva em meu coração. Acho que é amor, ainda que tenha sido platônico. Porém, tenho certeza de que, na próxima vez que passarmos por aqui, a história será outra: ... because night and day you are the one, only you beneath the moon or under the sun, whether near to me or far, it's no matter darling where you are, I think of you day and night...

terça-feira, 24 de setembro de 2024

Reabrindo as portas "Entre Páginas e Pixels"

Depois de um tempo afastada, resolvi reabrir as portas deste espaço que, por algum tempo, foi meu cantinho de reflexões e escritos. O blog Viver e Ser Feliz - Just It está de volta! Aqui, vou compartilhar crônicas, reflexões e momentos do meu cotidiano. Espero que minhas palavras encontrem vocês com o mesmo carinho e entusiasmo com que foram escritas. Vamos juntos, mais uma vez, redescobrir a alegria nas pequenas coisas da vida.

"Entre Páginas e Pixels" por Elaine Brunialti

Preciso terminar os livros que comecei a ler. Todos eles estão parados na memória do meu e-reader. Não gosto de ler no Kindle; é extremamente insípido, incolor, inodoro, inaudível — só não é invisível, embora às vezes pareça.

Chamam de livro, mas para mim é apenas uma leitura eletrônica, nem sei se esse termo existe. Livro, para mim, é papel: capa dura ou mole, edição de luxo ou econômica.

Gosto de folhear as páginas, do cheiro do livro, seja ele novo, cheirando a tinta fresca, ou velho, com cheiro de guardado. Livro é tato, visão, olfato e audição. Você toca, lê, sente o cheiro e ouve o farfalhar das folhas. Pode até ser paladar, se o livro lhe trouxer, por algum motivo, água na boca.

Você coloca o marcador de páginas ou, naquela página especial, pode até dobrar uma orelha, ou quem sabe marcar a borda com um marca-texto lilás. Você pode chorar e deixar uma marca do seu sentimento na folha, colocar uma flor ou um papel de bala entre as páginas e ali esquecê-los, até que um dia, ao reler, encontre um pouco da sua história dentro da história do livro.

Sem falar na gramatura do papel; gosto de gramaturas mais pesadas, gosto de textura. Dá para sentir a diferença ao folhear uma apostila de papel sulfite 75 gramas por metro quadrado, ou um livro impresso em papel pólen, com sua cor amarelada e toque rústico, eu diria nobre.

Aquele livro que você mais gosta, que relê sempre que pode, sabendo até que, na página 58, é onde a protagonista encontra seu amor ou sua rival pela primeira vez. E, nos romances, você fecha os olhos, leva o livro junto ao peito e sente o peso das folhas como uma carícia. Quando você se aborrece com o desenrolar da história, pode fechá-lo com raiva e olhar para ele de lado. Se for de terror, pode guardá-lo debaixo de todos os outros livros, com medo de que o vilão ou o monstro escapem durante a noite.

Mas, por falta de espaço, ou para me modernizar, comprei meu leitor eletrônico, e os livros vão ficando lá, guardados sem ocupar espaço, sem pó nem ácaros, sem flores ou papéis de bombons. Sem aqueles salva-páginas de fitinha de cetim desbotado, ou o marcador-brinde da livraria com um novo lançamento, ou um feito por você — o que fiz era de acetato, pintado com mandalas de verniz vitral, e está perdido em algum livro antigo. Qualquer dia desses o encontro, ao buscar um livro para reler, para matar a saudade, não só da história que ele conta, mas de todos os estímulos que despertam os sentidos.

Enquanto isso, vou carregar meu e-reader, tadinho, desmaiou por falta de bateria, enquanto eu recomeço a ler Noites Brancas — impresso —, emanando tinta e me permitindo ler a última linha do último parágrafo, num folhear rápido, buscando desvendar o destino de Nástienka."